O relato de uma experiência didática: um projeto de ambientação de interiores para a Casinha do arquiteto João Batista Vilanova Artigas

Categoria: Teoria Imprimir Email

por Ana Paula Scabello Mello

A experiência relatada a seguir ocorreu na disciplina Ergonomia e Mobiliário do curso de Desenho de Interiores da Uni-FIAM-FAAM. Este curso seqüencial teve início em 2003 e tem duração de quatro semestres, sendo que a disciplina em questão é ministrada no módulo do segundo semestre.

A disciplina Ergonomia e Mobiliário tem por objetivos ampliar o repertório e a visão crítica dos alunos sobre o universo do mobiliário, instrumentá-los para representar graficamente o mobiliário projetado, abordar o uso dos diferentes materiais e as aplicações possíveis e, principalmente, fornecer critérios de conforto e adequação ergonômica para o dimensionamento do mobiliário e dos leiautes de espaços interiores. A metodologia de ensino adotada baseia-se em aulas teóricas e atividades práticas. Os exercícios concentram-se no universo residencial, e o programa do semestre abrange as seguintes atividades práticas:

Exercício I: análise ergonômica de um ambiente residencial          

Neste exercício os alunos analisam o espaço e o mobiliário de um ambiente doméstico, quanto a sua usabilidade. A turma é dividida em seis grupos temáticos - estar, refeições, cozinha, dormitório, escritório residencial e banheiro – e os alunos analisam um ambiente de sua própria casa, relatando os aspectos positivos e negativos observados no uso destes espaços. O exercício inclui o levantamento dimensional do ambiente e seu mobiliário (plantas e cortes) e o confronto destas informações com as recomendações dimensionais e os dados antropométricos da bibliografia de referência (Panero). Os alunos apresentam também os registros fotográficos de usuários executando as tarefas próprias daquele ambiente, reforçando assim a importância de se conhecer em detalhes o uso real e as características antropométricas dos usuários para a realização de um projeto adequado de mobiliário e de ambientação de interiores. O objetivo deste exercício é instrumentar os alunos para os projetos a serem desenvolvidos nos exercícios II e III.

Exercício II: projeto de ambientação residencial

A partir de um único projeto arquitetônico fornecido pelos professores e de diferentes perfis de moradores, os alunos projetam a ambientação interior de uma residência. A seleção do projeto arquitetônico sempre parte do universo dos bons exemplos da arquitetura residencial brasileira, e busca melhorar e ampliar as referências dos alunos, que normalmente ingressam no curso com um repertório muito restrito. Foram temas do exercício a residência Dourado (1991), projeto do arquiteto Joaquim Guedes e, neste último semestre, a Casinha (1942) projetada pelo arquiteto João Batista Vilanova Artigas. Os alunos são orientados a pesquisar e especificar mobiliário e objetos de mercado nas suas soluções de leiaute, com exceção de um dos móveis, que será criado e desenvolvido por eles no exercício III. O resultado do exercício é apresentado em plantas, cortes e perspectiva isométrica.

Exercício III:  projeto de mobiliário residencial

Neste momento os alunos deixam a escala do ambiente e passam a trabalhar na escala do objeto. A idéia desta seqüência de exercícios é contextualizar o mobiliário no ambiente, isto é, fazer com que o aluno perceba a relação dimensional, formal e funcional entre o móvel e o espaço onde ele se insere. Neste exercício os alunos se deparam com as questões formais e construtivas do móvel, como o uso dos materiais e dos encaixes, e aplicam as noções de dimensionamento e usabilidade trabalhadas no exercício I. Os projetos são apresentados em vistas, cortes, perspectiva isométrica e modelo tridimensional em escala reduzida.

 

A experiência de ambientar a “Casinha”

Por sugestão do professor Ricardo Carranza, que ingressou como colaborador na disciplina neste semestre, nosso objeto de estudo para o projeto de ambientação foi a Casinha, projetada pelo arquiteto e professor João Batista Vilanova Artigas em 1942, no bairro de Campo Belo, em São Paulo. A experiência foi muito positiva, e proporcionou questionamentos e respostas dos alunos que não ocorreram em exercícios anteriores. Podemos destacar os seguintes aspectos:

Leitura do projeto e percepção do espaço – a riqueza espacial deste projeto refinou o olhar dos alunos, e aprimorou sua capacidade de leitura de projetos arquitetônicos. Por meio da leitura das plantas e cortes, os alunos puderam perceber como o arquiteto utilizou o bloco central do banheiro para delimitar os ambientes de estar, cozinhar e comer, mantendo a permeabilidade visual entre eles. Da mesma forma, foi possível observar que os espaços de dormir e de trabalhar foram definidos apenas com o uso de desníveis, sem portas, sem paredes internas (apenas um armário no dormitório), e que mais uma vez a comunicação entre os espaços foi preservada. Os alunos perceberam que poderiam – e deveriam – explorar esta permeabilidade no projeto de ambientação, bem como a diversidade de pés-direitos entre os ambientes, decorrente das diferentes inclinações das águas do telhado e do uso do mezanino.

Um projeto compacto, mas suficiente – o programa enxuto e as dimensões reduzidas da Casinha mostraram-se apropriados para um exercício onde se pretende estudar a adequação ergonômica dos ambientes, como no caso desta disciplina. Foi possível perceber que todos os ambientes, mesmo os mais compactos, permitiram leiautes adequados às atividades neles exercidas, utilizando-se mobiliário e equipamentos compatíveis com o espaço. Mesmo na cozinha, onde os equipamentos mudaram bastante desde a época do projeto da Casinha, os alunos chegaram a soluções de leiaute que contemplaram plenamente o uso dos eletrodomésticos atuais.

Intervenção em edifício tombado – procuramos ressaltar aos alunos a importância de intervir de forma cuidadosa e responsável em um edifício que tenha sido tombado, seja por sua importância histórica ou artística. A atuação do designer de interiores nesses casos não pode alterar as características do imóvel, portanto não foi permitido aos alunos alterar materiais de acabamento, louças sanitárias ou bancadas. Estas restrições foram a princípio recebidas de maneira negativa, mas foram muito educativas, pois reforçaram a idéia de que o projeto de ambientação deve completar o projeto arquitetônico e não descaracterizá-lo, e que este cuidado deve se estender a qualquer edifício em que o designer de interiores venha a intervir, seja ele tombado ou não.

 

Fig.1 Fig.1

           Fig.  2Fig. 2

Fig, 3Fig, 3

Fig. 4Fig. 4

interiores 5interiores 5

Fig. 6Fig. 6

Considerações finais

Por suas solução arquitetônica refinada e ao mesmo tempo despojada, aliada a um programa compacto, a Casinha do arquiteto João Batista Vilanova Artigas foi um excelente objeto de estudo para o exercício de ambientação da disciplina Ergonomia e Mobiliário. Os resultados dos trabalhos apresentados pelos alunos foram positivos (vide imagens), e nos incentivam a continuar a experiência didática no próximo semestre.

           

Arq. Ms. Ana Paula Scabello Mello

Professora responsável pela disciplina Ergonomia e Mobiliário

Curso Desenho de Interiores – Uni-FIAM-FAAM       

São Paulo, 27/06/2005

Bibliografía

Kamita, João Masao. Vilanova Artigas. São Paulo: Cosac & Naify.

PANERO, Julius; ZELNIK, Martin. Dimensionamento Humano para Espaços Interiores. Barcelona: Ed. GG, 2002. 320 p.

Ana Paula Scabello Mello é arquiteta e mestre em Arquitetura pela FAUUSP - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, e ergonomista certificada pela ABERGO – Associação Brasileira de Ergonomia. Dirige a Ofício Ergonomia e Design Ltda, tendo desenvolvido projetos e avaliações ergonômicas de salas de controle, ambientes e postos de trabalho industriais e institucionais, mobiliário e veículos. É professora no curso de Desenho de Interiores da Uni FIAM FAAM e no MBA Gestão e Engenharia de Produtos PECE / POLI / USP.

Alunos:

Antonio Augusto Pedroso

Fabiana Luiz Navarro Marques

Rosana Tadeu de Moraes

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